domingo, 13 de julho de 2014

Sobre o Surrealismo, o Estado de Exceção e o roubo do meu óculos

O Surrealismo sempre foi o movimento artístico que mais gostei, não por sua estética, plástica, mas única e exclusivamente pelo fato dele ter surgido. O Surrealismo nasce no pós 1ª Guerra Mundial e toma força com a quebra da bolsa em 29. A leitura que eu faço é de que as pessoas viram tantos absurdos, tantas coisas que não se tem como descrever que o impossível tomou forma, o impossível agora passava a ser retratado. Ao impossível que se tornou real, deu-se o nome de Surreal. O Surrealismo é o movimento do surreal, daquilo que transcende o real.


Em sociologia, o termo Anomia foi introduzido por Durkeim, para mostrar que algo na sociedade não funciona de forma harmônica, quando são rompidos todos os valores tradicionais, no qual tudo é possível, como nas guerras.



Durante a 1ª Guerra, viveu-se a Anomia. Civis sendo sistematicamente atacados como se fizessem parte do conflito, a conquista de um território que imprimia a conquista de tudo que nele havia, ignorando o direito à propriedade privada. Na Anomia, não se conquistam apenas o território, mas suas mulheres, e o "direito" de usá-las.  



Atualmente, no Brasil, vivemos um Estado de Exceção, que se opões diametralmente ao Estado Democrático de Direito, que seria o Estado no qual a população abre mão do seu poder de justiça individual em prol de um poder regulador maior. No Estado de Direito, a justiça não é feita pelas próprias mãos, recorre-se a um Estado, a um poder maior que, através de leis (também definidas e acordadas pelo povo), impões limites e penalidades para aquilo que se considera prejudicial à sociedade, crimes.



Mas não é bem assim no Brasil atual. No Brasil atual, temos de uma forma velada (não declarada) a suspensão de direitos e o Estado pode tomar, sem perguntar a ninguém antes, decisões que limitem os poderes do cidadão, como decidir a seu bel prazer quem deve ou não ser reprimido. E o Estado decidiu reprimir aqueles que se opõem a ele. Todos aqueles que abriram mão do seu direito de justiça individual em prol de um poder maior e que, hoje, acham que ele não está sendo bem utilizado.Se você, como eu, acredita que deviam ser feitos maiores investimentos em saúde, na formação educacional de uma população dotada de consciência crítica, que não concordam com a forma que o seu dinheiro está sendo administrado, bem, vocês também estão contra o Estado, e porque é um Estado de Exceção velado, você pode até tentar se opor, mas eles vão te reprimir. E hoje, foram 7 policiais (unidade física do aparelho de repressão estatal) para cada opositor. Hoje, a relação foi de 7 para calar a cada 1 que queria falar.



E foi nesse contexto de anomia, suspensão arbitrária dos direitos civis e surrealismo que meu óculos foi roubado. Tão logo a confusão começou no Ato dos Professores do dia 13 de julho de 2014 na praça Saens Pena, coloquei a minha máscara e meu óculos de proteção contra gás lacrimogênio. No segundo que coloquei a máscara, um policial disse que eu tinha de tirá-la, sob a ameaça de desacato caso eu não a retirasse. Retirei.



Em um outro momento, com muitas bombas, uma menor foi apreendida. Eu tentava fotografar o número da viatura que a levava com policiais homens apenas dentro (em um Estado Democrático de Direito uma menor não pode ser apreendida e levada dentro de uma viatura, muito menos sem a presença de uma policial mulher, muito menos sem que seja informado para qual delegacia), fui empurrada para longe da viatura e quando me afastava, um policial arrancou o óculos do meu rosto dizendo:



"Eu disse que era para tirar a máscara!"



 Impotência e depois raiva. Pude ver ele se afastando com meu óculos na mão, mas eram 7 para reprimir cada 1 que tentava discordar, e ele se foi.



Uma amiga diz que tenho de escrever textos que motivem as pessoas a pensar, mas e quando a gente chega em casa desesperançoso, sabendo que o movimento diminuiu para menos de um décimo do que foi um dia, e que a repressão é imensa, que enquanto você apanha as pessoas assistem a TV, o que você faz?

terça-feira, 17 de junho de 2014

Sobre quem sou e quem também habita em mim

Hoje, conversando com um amiga ela me falava do tipo de texto que escrevo que mais a agrada. Ela gosta do meu estilo sarcástico-irônico-divertido, que se assemelha muito com quem sou no cotidiano.

Contudo, passa que também sou depressiva e dramática e chorosa e melancólica e louca.

Tudo isso faz parte de mim. Sirva-se do que te convém.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Na Cadência do Samba


Sempre fui do tipo que planeja. Meu dinheiro era guardado e usado como o esperado, meus prazos cumpridos, trabalho e depois prazer, nessa ordem. Sem exceção.
Mas eu não estava bem.

Há uns dois anos, decidi que não iria mais me programar. Deixei a vida me levar. Não juntei dinheiro, não fiz planilhas, mas eu não estava bem.

Agora, já acho que é um pouco dos dois. Primeiro a gente planeja, orça, se prepara o melhor que dá e vai. Só que de olhos fechados e no escuro.


sábado, 24 de maio de 2014

Onde estou eu, onde está você: Arrependimentos

Eu jurei que não escreveria mais até que tivesse terminado de revisar meu livro. Esse era um pequeno estímulo para me fazer acabar logo, mas acontece que no meio do caminho eu fiquei tão triste, que não deu para segurar.



Todos nós procuramos um alguém especial. Aquele que vai estar do lado, desfrutando dos nossos desfrutes, rindo das nossas risadas, nos acompanhando.

Constante e incessantemente, me pergunto por que é tão difícil assim encontrar esse alguém? Tantos querendo. Tão boas pessoas. E por que não se encontram, e quando se encontram, por que não dura?

Ontem escrevi uma carta para Deus buscando um pouco de paz, talvez? ou seria alento? É possível que eu só quisesse que ele preenchesse esse vazio que fica quando alguém, ou a perspectiva de tê-lo, se vai.

Conheci pessoas que estavam sempre namorando, que "não conseguiam ficar sozinhas". Bom, eu que sempre fui só, nunca entendi muito bem isso. Sempre fui eu e eu mesma, não tinha bem com quem contar. Dessa vez foi a primeira vez que me senti namorando mesmo, criando uma história junto e tal.

Não vou dizer que sinto falta dos dias que fui deixada de lado, das infinitas vezes que fiquei sozinha, porém acompanhada. Não sinto falta de ser mal tratada, tê-lo "gritando" comigo. Enraivecido. Mal humorado. (ponho gritando entre aspas, porque ele nunca gritou efetivamente. Na verdade, sou extremamente sensível a desentendimentos, e qualquer voz mais grossa ou elevada já me fere profundamente. São traumas por ter sido criada em uma família na qual, dia após dia, eu despertava do sono com a minha mãe xingando e meu pai berrando. Eles sempre brigaram muito, ao ponto disso ser o natural da conversa deles. Eles não achavam mais que brigavam, eles estavam só "conversando").

Lembrando dele e dos meus pais, penso: " E até que ponto a gente pode suportar? Até que ponto dá para driblar, ignorar, arrumar um jeito de lidar com aquilo que é do outro, com as suas distrações, seus defeitos, sua humanidade?"

Tenho certeza que essa resposta é única em nós, mas para mim, de verdade, acabou quando os gritos, a grosseria e o mal humor deixaram de ser algo que se está trabalhando para conseguir melhorar e virou regra. Passou a ser "como você é tratado no nosso relacionamento" e isso, sem dúvidas, foi o que me fez separar. Eu realmente acho que mereço ser bem tratada. No mínimo, da melhor forma que você pode fazer. E você não fez.
 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O que te faz feliz?

Sobre homens, cirurgias e unhas


Como sempre mexo com tinta - e tenho o péssimo hábito de querer dar faxina na casa depois da manicure -  as minhas unhas nunca duram muito tempo. No máximo um fim de semana.
Uma das coisas que eu mais gosto no meu namorado (pois é, agora eu tenho um namorado) é o fato dele não dar a mínima para essas coisas de unha, cabelo, roupa e tal. Lembro que a primeira vez que fiz a unha quando já estava com ele, mostrei a mão pintada e ele ficou olhando com aquela cara de "o que você está me mostrando?". E eu achei ótimo!  
A melhor parte de ter um namorado que não liga para essas coisas é porque aí faço quando quero. Quando estou a fim de me arrumar, saio bonita, mas se quero sair troncha saio feiosa, sem ter medo dele não gostar mais de mim ou olhar uma outra mais bonitona na rua. 
Tem um texto na internet que conta os dramas que toda mulher passa tentando agradar um homem: depilação, dieta, sapato apertado, calcinha apertada na bunda, unha, cabelo. Ele se chama "Porque o homem tem de pagar a conta", é super fácil de encontrar online. 
Daí fiquei pensando... geralmente (e põe geralmente nisso) homens não ligam para essas coisas, e ficam as mulheres loucas, gastando dinheiro, rechaçando o reflexo do espelho, pensando em lipo, silicone, academia, para quê? Eles não ligam mesmo!
Eu precisei fazer redução de mama. Aos 14 anos de idade eu já tinhas os seios de uma mulher de 50 depois de amamentar 3 crianças, pois é era feio. Lembro que o que me deu força e coragem para fazer a operação foi um transsexual numa semana de cuidados natalinos (porque a gente quer ficar bonita no natal, né?). Roberta, acho que era o nome dele. Eu tinha muito medo da cicatriz que fica depois da cirurgia, tinha medo dos homens olharem e tocarem nela e não me aceitarem por isso.

- Que cicatriz que nada! O que o homem quer saber mesmo é da sua confiança caminhando ali na praça. Homem gosta de mulher que anda posuda, se achando bonita. Eles não ligam pra nada disso não. Ele falou.

E sabe, fez diferença. Ele me disse isso na semana do natal, no dia 2 de janeiro eu fui ao médico para ter uma avaliação (a avaliação foi "mulher de 24 anos com o peito de uma senhora de 50 depois de amamentar) e no dia 14 de fevereiro entrei na faca.
A verdade é que os homens gostam mesmo é de nos ver felizes. O que te faz feliz?

domingo, 1 de dezembro de 2013

Olhos de Cão Azul: Eu e o todo

Tem 8 anos que evito sentimentos profundos. Há 8 anos, que não reconhecia como é ter tanto o que dizer, ter tanto em mim ao ponto de não existirem palavas ou imagens que o defina e ilustre. Sou tomada por sentimento profundo, que só pode ser visto de olhos fechados, ombros erguidos e peito expandido. Minha mente silencia, os sentimentos são como névoa baixa, amedrontadora, fria e prestes a se dissipar.

De olhos fechados, percebo uma ponte, percebo um abraço, olhos verdes que me encaram, e volto.

Troco a roupa, entro no carro. Meu corpo passa pelas ruas no automóvel que me guia. Não estou ali. Estou em um quarto amplo à meia luz, um tapete no centro dele. Sou invadida pelo toque de um pincel macio que percorre seu corpo nu. Sou também a mão que segura o pincel deslizante. Pescoço, peito, braços, a palma da mão. Quando chega aos dedos, o contato do pincel cessa para que comece o meu. Volto.

Meu corpo no quarto de pernas cruzadas com o laptop apoiado. A névoa passou, há apenas escuridão fria agora. Da ponte você se afasta, mas os verdes olhos continuam a me mirar de perto. Eles entram em mim e voltamos para o quarto, estendido no tapete seu corpo descansa enquanto encara minha silhueta caminhando contra luz em direção ao banheiro. "O que será que ela vai fazer?", você quer se perguntar, mas não há espaço para isso agora. Você de bruços, uma leve brisa, a chama da vela trepida, um pouco abaixo da panturrilha, um toque quente que sobe. Volto.

Domingo. Ouço ao fundo The Scientist. Como será para você amanhã? O trabalho é difícil, mas não desiste, por favor. Falta pouco. É terça-feira, caminhamos. Nos detemos, te envolvo e desejo sinceramente que persista no teu sonho. Volto.

"Já chega!", é o que digo. Mas meus olhos turvam, tenho o tapete sob meu corpo sentado, o cabelo pende sobre o ombro direito, sua mão o acompanha. No esquerdo está você que me cheira, nas costas seu tronco me toca. Agora a cintura. Com a bochecha sinto seu rosto, mas os olhos verdes se fecham e vão. O tapete não é mais o mesmo, a penumbra vira escuridão, só consigo ver a luz amarelada que sai do banheiro e penso: "Será que ele está ali?"

Imagino que sim e no tapete mesmo tento dormir.

"Me abraça", você diz.

Há 08 anos evito sentimentos profundos. Há muito tempo desconheço a verdade das impressões que vêm de dentro. Que desperdício.



sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Olhos de Cão Azul: Ruth x Raquel

21:38, nenhum cigarro ainda. Às 2:00 da manhã eu completo 24hrs. Eu sinceramente nunca me importei com a questão do cigarro. Tragar e expirar fumaça não é bem o que está em pauta, mas desde ontem às 2:00 da manhã até agora, Rutinha é quem está vencendo. 
Faço agora uma alusão a novela Mulheres de Areia, na qual havia duas irmãs gêmeas, Ruth e Raquel, sendo a Ruth a boazinha e a Raquel a malvada. 
Eu tenho essas duas dentro de mim. Uma me dizendo tudo que há de mal, reclamando atenção, diminuindo meus feitos, e outra, madura, de voz mansa, mas firme, me dizendo para não desistir.
A Raquel me fudeu ontem. Ela me disse: "Que mal há nisso!? Você não vai vê-lo mais mesmo!" 
Porra! Que mal há nisso!? Já é a segunda noite de sono parco e perturbado, e mais um dia que não produzo. Que mal há nisso!? Que mal há nisso!? 
Havia todo o mal do mundo.
Raquel é metida, quer toda a atenção. De luxo, não aceita o que tem valor verdadeiro, quer o que brilha e ofusca. Ela não queria L., ela o achava até bonzinho, mas só por fazer bem pra mim, já não estava prestando. Ela se alimenta do meu pesar, como um parasita alcoolito que depende do meu beber para se saciar, ela me estimula o vicio. Que mal há nisso!?, é o que me fala.
Comemoro agora o domínio de uma outra pessoa. Eu sempre achei que água e comida não se nega pra ninguém. Quantas vezes me neguei isso! E tantas outras mais foram as que enfiei goela abaixo qualquer tipo de porcaria só para dar um cala a boca no meu estômago, sem me preocupar minimamente em me nutrir. 
Comemoro agora um outro alguém no controle. Já disse que não é bem o cigarro que está em pauta, mas o mal que eu me faço. O cigarro só é mais um deles, e nem é o maior de todos.

L. disse que queria me conhecer. L. falou que queria me ver, enxergar como sou. Acho que ontem, L. se arrependeu. 

Eu sou uma pessoa boa, sabe!? Mas não sou perfeita. L. descobriu isso. Ele me perguntou, "Como vou confiar em você outra vez?" Eu pensei...

A imagem que me veio à mente foi a da arma do meu pai. Papai trabalhou a vida toda para a Secretaria de Segurança do Estado, a vida toda tivemos armas em casa. Eu sempre soube onde elas ficavam, e desde sempre soube que não era para mexer. Só que essa história de desde sempre não existe. Em algum ponto meus pais tiveram de me ensinar que eu não deveria brincar com aquilo, mamãe me contou certa vez como foi. 
Primeiro eles esperaram eu perguntar. Quando o armamento me despertou curiosidade pela primeira vez, eles me mostraram. Eu quis tocar, e eles deixaram. Meu pai descarregou a arma, e me mostrou como era. Eu segurei, vi que era pesada, e me interessei pelas coisinhas cumpridas que saíram do negocio que girava. Papai me explicou que eram balas e que entravam ali, assim, e pôs uma dentro. Eu queria saber mais, queria saber para que servia aquilo, e meus pais disseram. E eu entendi. 
Isso aconteceu algumas outras vezes conforme eu envelhecia, as minhas curiosidades variavam com a idade. E eles me explicavam, eu chegava perto, tocava e ouvia que era só quando eles estivessem perto e que em hipótese alguma eu deveria toca-lá só, porque eu poderia me ferir ou ferir alguém. Eles sempre me disseram aonde estava, e logo em seguida diziam que não era para tocar. E eu nunca toquei. Certa vez encontrei a arma de papai em nossa casa na serra. Eu procurava uma caneta num jarro em cima da estante, quando coloquei a mão, achei uma arma. No almoço contei o fato pro meu pai que negou ter deixado a arma lá, no lanche não a encontrei mais. Eu não tive a curiosidade de tocar, eu já tinha tocado. Eu já sabia que não era para mexer.

L. foi para uma boate com seus primos e amigos na semana passada, eu desejei que se divertisse e desfrutasse de seu tempo e fiz 3 considerações:

Não olhe para ninguém;
Se te olharem, desvie;
Se caminharem na sua direção, fuja;

L. precisa ver a arma, tocar, chegar perto, sentir o cheiro e ver que decidir usar pode até matar, e eu também.

22:31, sem cigarros, sem medos, me permitindo chegar perto da arma e ver, exatamente como ela é para desde sempre saber que não se deve mexer. 

Ruth está com orgulho de mim. Disse para não desistir, que é verdade que cometi um erro e vou ter de lidar com as consequências disso, mas que não é o fim, que posso me perdoar e tentar outra vez fazer melhor. 
Raquel me diz que ele vai me abandonar, que nunca vai me perdoar. 

O que L. fará foge da minha alçada. 

Interessante reconhecer isso, nesse processo todo senti muita dor, mas sofri pouco. Até nisso confio nele, sei que vai mesmo pensar e sei que será honesto avaliando o que passa dentro dele. Tenho ressalvas de que vai me ouvir, pode ser que me escute, mas não sei se assumirá pre-conceituosamente o que direi. Não sei se me julgará como parte interessada ou se se aproveitará de  minha habilidade de ver por fora mesmo quando estou dentro.

Raquel me mostra tudo que perdi com minha atitude. Mando-a a merda. Quem mandou causar esse transtorno todo!?

Ruth se abstém e pede que eu durma. Há o que resolverei somente amanhã, e há o que posso resolver agora. Meu corpo demanda cuidados, faz tempo que não durmo.  

Escolho ouvir Ruthinha. #tomaraquel desde ontem sem fumar!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Chaque Pièce: Catre

A vida não permite rascunhos, tudo que fazemos já é viver. Entretanto, condescendente, a existência nos digna releituras: cada um conta sua história pelo ângulo que mais lhe convém. Pois digo eu que o leite que se espalha é parte do desajeito do meu viver, bem como o choro que verto é a maneira que encontrei de acompanhá-lo para que não se sinta só correndo pela mesa.

Eis minha versão dos fatos:

O presente que me trazes é compensação financeira pelo mal que me passou. Como a uma puta que não tem quaisquer obrigações de te ouvir na cama, mas por caridade te concede ao desabafo parte do tempo que seria dedicado ao coito, no fim, oferece gorda gorjeta em dinheiro. É assim esse presente; vazio de propósito e sentimento. Apenas uma tentativa não muito custosa, não muito onerosa de gratidão.Pois aceito! Não foi há muito que me dei conta que é isso mesmo que sou, prostituta da absolvição.

Entra. Usa. Esfrega na bunda e dá descarga. Até papel higiênico tem sua função, por que não teria eu a minha. Mas fica tranquilo, minha voz é mansa, minha fala é fácil. Você vai encontrar a bênção que queria. Vai me contar dos seus amores, vai me dizer quem eles são, como se vestem. E eu vou ouvir, vou concordar, te embalar.

Não sou dessas que se dá valor, se fosse cobraria mais pela foda. Qualquer piranha cobra pela hora, mas eu. Eu me alugo aos minutos. E veja você que há quem me contrate pelos 5 que restam antes do fim da função. Se fosse puta de conceito, estaria de ferrari, fendi, burberry, não é qualquer uma que vende e entrega o perdão.

Foi naquele filme que o magnata larga a perua escrota para ficar com a puta, mas isso daí é ilusão, e a minha acabou aos 15, no dia que fui violada. Fui penetrada aos poucos pela insistência latejante dos que sabem convencer. O riso e o sangue no final. Ele, triunfante, me segue há onze anos. Eu, sem valor, me dreno por nada, para qualquer um.

Mas agora cansei, vou mudar. Deixa o perfume aí do lado e me fode de quatro. Já deu essa história de beijar.

domingo, 3 de novembro de 2013

...mesmo assim eu quero ficar com você.

Vi o filme do Fábio Porchat, Meu Passado me Condena, ao contrário das histórias de amor de cinema, no final ele fica com a esposa dele mesmo. Ele é infantil, pobre, atrapalhado, sem noção. Ele chata, rabugenta, séria, de luxo. Mesmo assim eles ficam juntos, e de alguma maneira essa história me pareceu mais crível que as hollywoodianas. O mocinho e a mocinha eram reais, com virtudes e defeitos, prós e contras, coisas com as quais o outro terá de aprender a lidar, e isso está muito mais próximo ao que encontramos no dia-a-dia do que o homem lindo, maravilhoso, destemido, protetor.

Lembro dos casais próximos com os quais convivo. Meu irmão, mesmo depois de casado, ainda tem medo de escuro. Quando éramos pequenos, para ir à cozinha, acendíamos as luzes da sala, do corredor e da cozinha, só para não ir no escuro. Ele continua o mesmo medroso de sempre, apesar de pagar as contas em dia, ser "o homem da casa". Meu pai é um frouxo quando o assunto é hospital. Nunca vi alguém passar mal só de pensar que vai ter de passar por lá. Nesse aspecto durona mesmo é a minha mãe, ela faz químio e toma todos os remédios. Pode ser injeção, amargo, demorado, não importa, ela vai. Confesso que nesse aspecto puxei papai, qualquer febre mais alta estou certa que é meu fim. Numa dessas terminei, só esse ano, umas 3 vezes já.   

Na minha história com A. já entendi que não devemos ficar juntos. Têm coisas que ele precisa aprender, melhor dizendo, tem o que ele quer viver, e eu não caibo lá. 

Contudo, passa que enquanto nos despedimos, na tentativa de encontrarmos um jeito de romper sem ter de se afastar, vou aprendendo sobre essas gostosuras do "se relacionar". Sou dessas de sentimentos lentos, escuto algo hoje que só me dói daqui dois dias, como foi o caso da garota no bar. 

Em 2013, não tenho mais teorias sobre o amor. Entretanto, aventurando-me pelo desconhecido, diria que o amor de verdade é diferente desses da tela de cinema. O amor da vida real é composto pelo agrupamento infinito de paradoxos cotidianos colados com "...mas mesmo assim eu quero ficar com você".




domingo, 13 de outubro de 2013

Chaque pièce: Trois.

"Eu que não sei quase nada do mar, descobri que não sei nada de mim."


Sempre me descrevi como essa pessoa não impulsiva que faz as coisas devagar. A metáfora que eu usava era a de alguém que chega na beirada do lago, pisa na areia e volta para o deck para ponderar. Num outro dia eu chegaria mais perto, molharia o pé, e mais uma vez deck. Descrevia-me num processo longo de muitas idas e vindas, cada vez molhando uma parte maior do corpo até que mergulhasse a cabeça na água.

Que nada...

Meus momentos de angústia e experimentação são sempre marcados por excessos. Tenho certeza que a gordura, o açúcar e a nicotina contribuem para potencializar meu estado de crise, mas é sempre proposital. Eu já estava entupida, remexida e enojada, e mesmo assim acendi mais um. O mais perto que chego, mais me entupo. Nada de lago, é no oceano mesmo que me jogo. Vou caminhando mar adentro, molhando a roupa enquanto me nego o peso do jeans molhado, o frio e o medo. Cada passo que dou encontro novas justificativas criativas para dizer que na verdade não estou entrando e quando quiser posso sair, é só querer. Já tendo água pelo nariz, não conseguindo mais caminhar ou respirar, recuo. 

Busco, busco, busco. Breco e volto. Sentada na areia, tremo de frio e me obrigo a ver o sol nascer na praia. "Tem de haver algo bom nesse 'sofrimento' todo", penso. Sofrimento imposto que fique claro. 

Mas o que eu queria mesmo era me afogar. 





Chaque Pièce: Deux.

Teoria da Diferenciação dos Líquidos.


Amar é como uma cirurgia cardíaca; Urgente, inadiável e fundamental para se continuar vivo. 

Como numa cirurgia, para amar é necessário abrir-se ao meio. Corta-se o peito na direção do coração, o externo que permaneceu unido por uma vida inteira é serrado em dois e separado de maneira imensuravelmente dolorosa. Uma vez separados, tudo que te protege se foi, tudo que tens de vital se expõe. O interior aparece: líquido, frágil e precioso. Até que a dor passe, é impossível conhecer de polo a polo sua vastidão.

Vitais e necessários, assim são a cirurgia e o amor.

Amar é uma escolha. Abrir-se é uma opção, permanecer fechado também. Porém, como numa cirurgia tão importante quanto a do coração, uma hora que não dá mais para adiar. Ou nos abrimos, ou morremos. É isso, sem opção.

Conheci A. por acaso num bate-papo de celular. Ia tudo bem, então ele me trocou. Se eu estivesse fechada teria doído bastante, eu carregaria por uma vida inteira as marcas de uma ferida nada estética, mas eu estava aberta.

Na sala de cirurgia, enquanto eu ainda me encontrava anestesiada, ele entrou com álcool e fogo. Queimei de dentro para fora. Do outro lado, atrás do vidro grosso ele se desculpava, mas me assistiu arder até o fim. Sua passividade diante da minha agonia deixou uma queloide que não tenho mais como esconder.

Seu comportamento dissonante pode ser explicado pela Teoria da Diferenciação dos Líquidos. No primeiro, um copo ordinário com água, no segundo uma taça de ouro com esgoto dentro. Para olhos não treinados, a escolha do ouro parece óbvia. É ouro! Não é? Contudo, uma análise mais profunda nos permite compreender que 70 % do nosso corpo é água, substância química composta de hidrogênio e oxigênio, essencial (básica, crucial, elementar, fundamental) para todas as formas conhecidas de vida na Terra, inclusive a humana. Sem água não se vive. Sem água não se continua a viver. Já o ouro? Para que serve se não para pendurar no pescoço e sair por aí mostrando para todo mundo que se tem?



Nessa metáfora, a água vem representando as relações verdadeiras que nos compõe e mantém. Nenhum outro líquido pode desempenhar sua função vital na regulamentação do organismo. O ouro representa as relações passageiras, o belo rapaz que faz os seus ovários saltarem*, os olhos brilharem e você querer possuir. Para poder exibir depois, evidentemente.  




A questão é que a taça de ouro vem servida com esgoto. Esgoto este que será sorvido até a última gota se queremos desfilar com o metal brilhante por aí. São pessoas que têm forma e um conteúdo de merda para oferecer.



Ilogicamente natural que se faça essa troca, faz parte da vida. Faz, também, parte do pensamento moderno sempre nos mantermos disponíveis e desapegados para as "melhores oportunidades" que virão, são tantas, não? Esquecemos, entretanto, que a medida do valor das coisas está no quanto nos empenhamos para consegui-las. Em algum momento inexperientemente acreditamos que o ouro é mais valioso que a água, ou que a grama do vizinho é mais verde que a nossa e, curiosos, trocamos. Sucessivamente continuamos nesse processo, alguns por anos, outros por uma vida inteira. Mais uma vez, uma questão de escolha.

Zygmunt Bauman diz o seguinte em seu livro 44 Cartas Líquidas do Mundo Moderno: "Não há mais a necessidade de fazer a corte [...], é dispensável insinuar-se aos olhos dela ou dele e esperar um longo tempo, quiçá uma eternidade, para que todos esses esforços [os da conquista] deem resultados.
Tivessem elas [as pessoas] a possibilidade de examinar com atenção o que suas experiências propiciam, descobririam, para sua surpresa e frustração (embora tarde demais), que o romantismo, o lento e complicado processo de sedução que hoje só lhes é dado ler nos velhos livros, não significava obstáculos desnecessários, redundantes, cansativos e irritantes a bloquear o caminho para a 'coisa em si' (como os fizeram crer); estes são ingredientes importantes e até cruciais da própria 'coisa', aliás, de todas as coisas eróticas e sensuais, partes do charme atrativo." 

Eu-indivíduo achei uma Puta! duma sacanagem o que você fez comigo. Mas como ser humano achei louvável a sua atitude! Eu, por mim mesma, gostaria de ter ver sofrer. Minha vontade é dar com a sua cabeça na parede e te ver caído no chão em agonia tão intensa quanto a que senti. Eu ficaria ali, sentada fumando um cigarro, e assistindo de camarote você se contorcer como plástico pegando fogo na pele. Enquanto ser humano, te bato palmas de pé por ter tido uma vontade e culhões para ir atrás do que queria. Parabéns! 

Parece insano dizer isso, é aparentemente ilógico querer que você padeça e te parabenizar pela atitude que me fez sofrer. Porém, por favor entenda que na verdade essa aparente insanidade é justamente o que me define. Na contemporaneidade, em que todos seguimos tendências e nos empenhamos para comprar roupas, pagar o carro e manter a casa que permanece vazia enquanto trabalhamos para pagar por tudo isso e continuar nos enquadrando, você pôs um ponto fora da curva. Foi feio, foi escroto, mas verdadeiro. 

Ah! Se todas as pessoas fossem verdadeiras consigo mesmas...



* o grifo dos ovários é da Anna Hang, sexóloga empírica.  

terça-feira, 1 de outubro de 2013

2A Fatinha

A boemia que começa desde pequeno e entranha na alma.


- O que foi, amor?
- O menino me chamou de feia.
- Feia?
- É, feia. - disse chorosa.
- E você é feia?

Já não estava mais chorosa. Dessa vez, o olhar estava entre a dúvida do entendimento da pergunta e a indignação com a minha possível concordância.

- Não. Eu não sou feia!

Ela optara pela indignação. Me rio lembrando do beicinho vermelho, a cabeça baixa com os olhos lacrimejantes me encarando, clementes e desafiadores.

- Então?
- Então o quê, mamãe?
- O que te incomoda?
- Ele me chamou de FEIA! - mais indignação, dessa vez.
- E daí?

Agora ela estava pasma. Tomada pela revolta fria dos injustiçados, seu corpo imóvel tinha por animado apenas o vestido que balançava com a brisa.

- Mamãe?!
- Ué?! Você acabou de me dizer que não era feia.

Relaxou. Seus olhos desafiadores cederam lugar a dois outros duvidosos. Sacudia o pezinho torcido por trás do outro que a sustentava, enquanto as mãos se ocupavam da barra do vestido já arrependida de ter começado a conversa difícil.

- Duda, o que é feio?
- Eu... eu não sei, mamãe.
- Como assim não sabe? Você acabou de chegar aqui chateada porque alguém te chamou de feia, e você não sabe o que é?
- Não, mamãe. Eu sei o que é. Feio é quem faz algo que não pode.
- E você fez algo que não podia?
- Não.
- Então?
- Mas, mamãe, ele falou!
- E por que você concordou?

Ombros arqueados. Tadinha, estava vencida. Expliquei que o belo e o feio não existem, são decisões. Achamos belo e feio o que queremos achar, sem essa de convenção social. Disse-lhe que o importante era como o coração ficava antes, durante e, principalmente, depois de uma decisão. E foi com um abraço apertado puxando alguns fios do meu cabelo e um beijo adoçado de abóbora e coco que ela se despediu. Era domingo num bar em Santa Teresa, lá o samba flui até na alma de quem nunca sambou. Ele vai com copo numa mão, a outra no bolso e o pé que sobe e desce marcando o compasso.

Educar é muito difícil. Produzir conhecimento em outra cabeça que não a minha própria, respeitando o tempo (que pode ser eterno, principalmente em se tratando do meu relógio ansioso) dele entender o que você quer dizer, e reunir o que é preciso e só então poder decidir se quer ou não tomar uma atitude é muito angustiante. Graças a Deus Santa Teresa é cheia de bares. Quando o cinema mela, ainda dá para escrever em outro lugar.

domingo, 1 de setembro de 2013

Pára-raio de maluco.

Uma festa de criança, O município de Caxias e as pessoas estranhas da rua.


Honestamente não reconheço o sinal que emana de mim e, como o perfume doce que chama abelhas, atrai os loucos dessa Terra. Sei que unido ao do Leo (um outro amigo fora da casinha) termina em situações como a de hoje, quando o momento trivial de três amigos saírem para fumar durante um aniversário de crianças se transforma num relato detalhado da lua-de-mel frustrada de um homem, no caso, o segurança.

- A culpa é toda do GPS! GPS, não funciona não! Dizia ele.

Não me perguntem como chegamos ao GPS, a teve início com algo em torno de "Alguém está na frente do hotel Ferraz tentando chegar aqui..." E aí ele começou.

- Sabe rapaz, eu ganhei de presente da casamento ficar na casa de um amigo em Cabo Frio...

Pensei: "Puts! Que história é essa?"

- ... aí peguei o carro, programei o GPS e fomos eu e minha esposa pra lá. Andamos, andamos, andamos, e quando o GPS disse: Chegou! A gente tava dentro de uma favela, cara.

"Bom, até ai tudo bem." Simpática, comentei:

- Ah! Mas é assim mesmo, GPS no Brasil só serve pra levar a gente de uma cidade a outra, mas quando a gente entra tem de ser perguntando mesmo.

Só que ele não entendeu a marca de simpatia de um estranho que faz um comentário genérico para encerrar uma conversa que não quer ter. Continuou...

- Pô, cara! Parei o carro, aí! Mó favela estranha! Assim que estacionei, um cara passou correndo atrás do outro com um facão na mão.

"Porra", pensei! "Que merda de lugar é esse?"

 - Aí entrando na casa... a casa cheia de mofo, não tinha nem cama, era só um colchão no chão.

"Tá bom, já ouvi o suficiente! Tá vendo? É por isso que eu odeio conversar com pessoas que eu não conheço!" Absolutamente constrangida, não sabia se jogava o cigarro fora ou fumava mais de tão tensa com a situação. "Senhor! Por que eu tô ouvindo isso?" Rezei.

- Pô! O chuveiro era elétrico, uma água fria do cacete! A tv era como? A imagem toda cinza que ficava subindo assim...

Nesse ponto, rendida, comecei a rir. Nossa! Como assim? O cara sai pra lua-de-mel, pára dentro de uma favela, com um cara correndo atrás do outro com um facão na mão na porta da casa que ele ia ficar? Casa sem cama, água quente e fedia a mofo? Em Cabo Frio! Não deu! Mas minha vingança veio na forma de propaganda eleitoral.

- Minha mulher queria ir embora, queria ir embora, e eu falando não. Que isso! Pô, ficamos lá naquela noite e no dia seguinte fomos para Saquarema, aluguei uma casa lá e ficamos por lá mesmo.

"Menos mal!"

- Pô, foi provação, hein! No dia do casamento o fotógrafo não tinha ido e o que salvou a gente foi uma amiga com uma câmera pequenininha que registrou lá o momento... Minha mulher ficou com raiva, né? Nem a roupa especial quis colocar, foi dormir com a camisa do deputado! Pô, olhei pra ela e perguntei: " Que camisa é essa aí com a foto do deputado nas costas?"

O cara andava de um lado pro outro fazendo mímicas da fotógrafa, da camisa e eu, sem opção, rindo.
Surpreendentemente, continuam casados. Isso já tem dois anos.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Chaque Pièce: Un.

Do céu ao inferno no espaço de uma semana, por Nany Pereira


Impressionante como se pode estar no céu, descer ao inferno, deitar-se com o capeta e ainda assim entendê-lo.

Não vou julgar se e quando será minha hora de ser feliz. (Será que existe uma hora para a felicidade?)

Estive radiante por um tempo.

O céu tem por cenário apartamento alto de frente para o mar. Botões... primeiro um, depois o outro. A camiseta desliza lentamente pelos ombros flertivos que se revelam nus. Suaves. Caminhamos vagarosos pelas nuvens fofas. Nele, o pecado original ainda não aconteceu, a nudez é natural. Própria. Envoltos na atmosfera celestial, refletidos no espelho os corpos são curvas perfeitas, sinuosas e convidativas. No paraíso ficamos unidos por um canal que se abre diretamente do coração, e como gravidade somos puxados um para o outro. Rosa, verde e amarelo com nuances de laranja, essa é a cor do amor lá em cima. Quem olha bem fundo, olho no olho, vive o que o outro sente. Olhando nos olhos, escuta-se com a alma o que o outro pensa. No céu as pontas dos dedos são sensores, demarcadores deslizantes que conquistam centímetro a centímetro a geografia do indivíduo. Lá o tic-tac do tempo bate junto, o meu e o seu. Sincronizados. As manhãs são extensas em cama grande. Os dias não acabam, possuem a luz eterna do final da tarde. Somos brilho.  

Anjo caído.

Uma mensagem e volto ao chão, para descer um pouco mais logo em seguida. Penetrando solo abaixo, é loucura dizer que tanta dor vale a pena. Desfragmento-me pelo caminho, a primeira hora me acerta com uma forte pancada no ombro esquerdo que cai. A segunda e a terceira abrem uma cova que me rasga do pescoço ao ventre. As horas subsequentes trabalham para extrair o que um dia existiu dentro de mim, usurpar-me. Oca. O buraco negro que se abriu um pouco abaixo de onde antes era pura gravidade me suga. Pleno de espaços parcamente preenchidos por dois maços, o inferno é uma cova de lodo fedido. Lá, o SUS também montou filial, e o demônio fez questão de me fazer esperar pelo remédio de esclarecimentos que eu tanto precisava para melhorar. Não foi em uma fração de segundos que desci. Na verdade, a viagem durou um dia inteiro, de onze da manhã às nove da noite, quando o capeta encontrou espaço na sua agenda para me atender. Conversamos. Num espaço comum, do lado de fora do que um dia fui eu e você, ele podia me entender.

Terra.

Um outro tipo de força me empurra à superfície. Instantaneamente os reconheço! São fios que me envolvem por inteira, coloridos. Vivazes. Meus amigos, meus pais. Descanso em braços confortáveis. A cama é pequenina com dois gatinhos manhosos fazendo bolinha para dormir e se esquentar. Mansidão.

Fui, eterna. Hoje, oscilo.  

 




domingo, 25 de agosto de 2013

Processo Criativo

O processo criativo, meu amor e um caderno de uma professora escrota.


Interessante que todo processo criativo começa em mim numa pequena vontade. Tenho de fazer esse scrapbook para a aula de Inovação e Criatividade. A professora é uma merda, já no primeiro dia me disse que eu não poderia falar palavrão! Que porra é essa? Como vou me expressar com minha fala tolida?

De qualquer maneria aceitei o desafio, um pouco antes da aula começar vi um menino no pátio pintando em aquarela, ele tinha um caderninho de folha boa e pintava nele. Comprei um igual. Interessante que, as dúvidas que normalmente me assombram ao tomar uma decisão, se esvanecem em momentos como esse. Que momentos são esse? Bom, são esses momentos que você precisa comprar um caderno para uma aula irada de uma professora escrota, que está revoltada porque o único lugar o tem disponível para venda é a papelaria da faculdade por R$ 13,00 caros reais, e aí você entra, puta com o preço e vê. Aquele caderninho, preto, sem graça com folhas lindas para aquarela que o menino no pátio estava usando e decide comprá-lo pelo dobro do preço e fica feliz!

O momento que pospõe a vontade é um momento de medo. Olho para o caderno, ele olha para mim. Abro, fecho, folheio. Tenho uma ideia boa para a capa. Desconsidero-a. Tenho outra, inviável. Acho que não vou conseguir, penso em desistir. Desisto.

Mas a porra do trabalho é para quarta. E aí sinto aquela vontadezinha outra vez...

Assim meio às cegas vou à papelaria, munida do caderno preto e de uma pequena vontade: queria que o caderno fosse sobre o amor. 

O amor é em aquarela, isso sem dúvidas! A paixão em grafite/jet e a depressão em óleo. Ele é simples, linear. Tinha de ter uma imagem que o valesse também, algo suave, livre. Ah! O amor é rosa, ao menos o meu o é. Rosa chá, nada de rosa choque, rosa choque é a paixão aos 15. Precisava pensar nos termos práticos também; a capa do caderno não permitiria o uso de cola ou fita dupla-face, como iria colar isso? Como iria encapar esse caderno preto sem graça nenhuma, com aquela linda folha super especial de aquarela de um bloco de R$ 60,00? Pois é, paga-se R$ 60,00 por um bloco de 10, 20 (?) folhas boas. Mas vale a pena! São folhas lindas com umas nervurinhas verticais, tão paralelas, tão suaves, tão preparadas para a água! Precisava pensar! Como seria o acabamento? A aquarela deveria ser protegida! Contact foi a saída mais fácil... tirou um pouco da leveza, atribuiu um brilho não natural ao fim, mas fazer o quê? Era o que tinha... 

Assim, cheia de pequenas vontades, entrei e comprei o que me tocava. Tudo que me ligava ao amor e podia ser útil e aplicável ao meu caderno, levei. Mais um bom motivo para artista ser rico, seguir o coração custa caro. 

Voltei à casa com uma sacola repleta do que possivelmente precisaria. Possivelmente... premonição como custa caro antever! De qualquer maneira, já tendo uma pequena ideia de que meu caderno seria rosa, com um toque de marrom, fui em busca da capa perfeita. Na minha biblioteca de imagens interessantes fui passando uma a uma assim, bem rápido para que meu subconsciente decidisse qual a ideal. Encontrei. Era a imagem de um muro de tijolos que se expandia e transformava em galhos com um passarinho na ponta. Perfeito! Afinal, no amor começo rígida, concreta e vou me transformando em vida, até que voo. Muito bom! (ao menos acho que é assim!)

Carreguei a sacola por 2 dias. Depois que decidi o desenho, assim que cheguei em casa dei cabo dele,. Cortei o papel de 60 na medida exata da capa (que futuramente se revelou não tão exata assim e tive de improvisar... mas tudo bem, no amor é assim mesmo. As vezes nos deparamos com algo inesperado. Tudo de acordo, tudo na mesma sintonia. Assim que sabemos que está dando certo!). Levei-o para o trabalho, separei mais algumas coisas que precisaria. O final mesmo, ou seja, a montagem seria feita na facul em condições adversas. Sim, pois é terrível criar fora do ateliê.

Já na faculdade morri de medo pela segunda vez quando comecei a colar a capa. E se ficar uma merda, pensava. Mas com medo mesmo fui. O prazo estava acabando, a entrega era no dia seguinte. À parte a folha do desenho que ficou uns 7mm menor do que o esperado, tudo correu bem. Era um misto de nervosismo e excitação: cada etapa concluída um alívio e aquele orgulho de mãe quando olha um filho seu fazendo algo sozinho. Sozinho, sim, porque para mim o caderno construiu a si mesmo. Tudo que fiz foi às cegas, ele que me guiava dizendo por impressões e sentimentos como queria nascer.

Juntei umas rosas à contra capa, adicionei um pouco de tinta, colei o contact e bum! Ele estava pronto. Nasceu, eu dizia! Opa, faltou o detalhe da fita! Ah! Tudo bem! Eu coloco amanhã!

Deu tudo certo, o caderno ficou lindo! E eu assim toda boba, decidi escrever sobre ele. Meu amor em forma de caderno.






quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Coação!

Quando os argumentos acabam, a coação supera o bom-senso e ocorrem baixas por um pudim que não deu certo. 



- Fui Coagida agora!
- Como assim?
-  Pois veja você que estava eu passando em frente da casa do pão de queijo quando um cookie me sorriu. Prontamente resisti, afinal havia um pudim diet na geladeira me esperando. Chego de volta ao trabalho e descubro que no pudim deu água. ÁGUA! Aí ficou difícil! Sem saída tive de comer o cookie! Um ultraje desse pudim se abster da missão de ser devorado por mim como se fosse um torrão de açúcar! Sobrou pro coitado do cookie dar cabo da minha ânsia por doces! Pobre cookie. Pobre, pobre!

Sabe que se eu não fosse dessas justas, teria liquidado também uns palitinhos de biscoito com creme de avelã dentro! Foi por pouco, muito pouco.

Edivaldo

Há quem diga que tudo acontece por um motivo. Há quem discorde. 


Passei a semana inteira me perguntando porquê seria eu a única funcionária da empresa a trabalhar no dia dos pais. A resposta não tardou a chegar.
Passei a tarde de hoje com o Edivaldo, o segurança do plantão de hoje na loja. Edivaldo é casado com a Nete, com quem tem o Eric e a Ana Beatriz. É pai também da Rayane e do Ricsson, mas estes são seus filhos do primeiro casamento e já são mais velhos. Rayane trabalha para a Petrobrás e o Ricsson vai fazer prova para o batalhão de operações especiais (BOPE), que Deus o guarde!
Edivaldo me fez chorar como um bebê, no dia de hoje. Não só porque ele é pai e me deu a oportunidade de ver como os pais babam quando falam dos filhos, não só porque tem doze irmãos e uma história de vida de muito trabalho, ele me emocionou pelo que não se pode dizer.
Chegou assim meio cabisbaixo, e eu que não sou muito de conversas com estranhos, no meu canto fiquei. Mas tinha algo naquele homem que chamava para ser ouvido. Foi mais que ver a angústia dele. Senti. Como há algum tempo não sentia por ninguém. Confesso que levantei para chorar no banheiro. Até que ele mesmo chorou na minha frente ao que aguentei firme, afinal, já era suficientemente constrangedor um de nós chorar, imaginem os dois?

Ele tá pra sair do emprego regular que tem, trabalhou 25 anos, mas depois que o dono da empresa faleceu e os herdeiros assumiram, as coisas mudaram. Ele disse.
Edivaldo precisava de uma palavra de ânimo. Disse-me mais de uma vez que sempre ajudou as pessoas sem querer nada em troca, e acabou por receber desagrados de volta. Ele sabe que a vida é assim mesmo, fazemos o bem aqui e é lá na frente, muitas vezes pelas mãos de outras pessoas que nem imaginamos, que somos ajudados. Edivaldo foi hoje ajudado. Passei o telefone de uma advogada amiga minha, é à contragosto que provavelmente moverá contra o filho do seu falecido patrão um processo. Edivaldo foi ouvido e me agradeceu. Morri de vergonha. Morri de chorar.
Edivaldo é um homem bom, dava para perceber assim só de olhar, mas o melhor de tudo hoje foi pensar que o bem mesmo, é esse que a gente faz na rua, na hora que a oportunidade passa. Há quem diga que tudo acontece por um motivo. Há quem discorde.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Só mais um Silva

Relato sobre a manipulação midiática dos protestos do dia 17 de julho de 2013 no Leblon, Rio de Janeiro.


 Não tenho como descrever minha perplexidade diante de tudo que tenho visto nesses últimos 02 meses, mais especialmente ainda a pouco na última edição do RJTV. Manipulação midiática, a transformação da indicação de uma rota de fuga (a ÚNICA possível no momento) ser transformada num comando à um novo destino de guerra. Lamentável.

Barricadas foram extremamente necessárias, o fogo do lixo era a única coisa que nos protegia do choque, foi a única coisa que nos protegeu do jato d'água. É revoltante sofrer tanta opressão, primeiramente ao meu direito de dizer, apenas dizer, que não concordo. Porque até por esse direito, depois de dois meses ainda estamos lutando! É revoltante pensar que tudo que passamos, todo o gás que aspiramos, todo o medo ao ter armas de fogo apontadas em nossas direções principalmente no memento que dispersamos e tentamos caminhar para casa, quase sermos atropeladas por motos do choque que ziguezagueam velozmente na calçada! Na calçada!

A mídia não contou sobre o policial civil à paisana que, sem se identificar, retirou à força uma menina do meio da manifestação e tentou arrastá-la por uma rua deserta com arma em punho. A mídia não mostrou que a polícia se omitiu durante o tão condenado quebra-quebra. Não moveram nenhuma palha, não, não! Ao contrário, reprimiram covardemente, nos acuaram, nos impediram de sair bloqueando todas as ruas e deixaram quebrar, colocar fogo. Por que será, né? A mídia não conta que o choque atacou primeiro, e nos acuou na esquina da pizzaria guanabara, mas mostra os Black Blocs revidando. Que seja lido bem: revidando, pois só revida o que é primeiramente atacado, e foi isso que aconteceu. Sem os Black Blocs lá, teria sido um massacre. Assim como na Pres. Vargas no 20 de junho, assim como sempre.

Sinceramente não sei de onde esse pessoal tira tanta coragem para resistir, mas acho que é a indignação somada ao ódio de ver tanta opressão. A polícia trabalha como segurança privada do governador, as conquistas dos outros estados são sistematicamente sufocadas. Em Porto Alegre já tem passe-livre, sabiam? Conquista nossa, povo.

Não concordo com quebra-quebra na mesma medida que não concordo com abusos de autoridade, com a supressão do direito de discordar, com a forma corrupta do governo, com as medidas ilmorais que ele usa para se manter. Dudu, Cabral, a Globo e todos os outros gigantes midiáticos querem isso: que você, amigo, pai, mãe, tio, que não vão às passeatas, e continue com seus direitos suprimidos como sempre foram e calados, acreditem que é só um bando de vândalos, crianças rebeldes, loucos.

Por favor, querem ver a realidade, acessem A Nova Democracia, Mídia NINJA RJ ou, a melhor opção, vem pra rua!

Agora, uma pergunta para fechar: E se você abrisse a boca agora e expressasse sua opinião, se dissesse do que não concorda, o que aconteceria? 


Segue minha versão dos fatos, em vídeo.













segunda-feira, 15 de julho de 2013

A semana

e seus dias, segundo eu

Esse post deve ser lido com música. Segue a trilha sonora que recomendo.



Decretei segunda-feira o dia da faxina aqui em casa. Duas horas por semana limpando e organizando a casa parece bom para mim.

Comecei a fazer a conta. Em uma semana de 168 horas:

02h/ sem para a faxina
36h/sem para o design
06h/sem para o estágio
06h/sem para a tradução voluntária
01h/sem na terapia
02h/sem na yoga
42h/ sem na cama (dormindo ou tentando)
14h/sem me deslocando

Sobra uma média de 8h/dia para usar como eu quiser. No que estou gastando as minhas horas?
Bom, ontem foram 5 horas entre sair do trabalho, ir ao cinema e voltar para casa. Considerando a 01 hora extra que fiquei esperado o segurança chegar e passei do horário no trabalho, a 01 hora antes de entrar no trabalho que cozinhei, organizei a bolsa e me arrumei, somados aos 30 min que levei para me maquiar antes do cinema e os 30 min entre chegar em casa do cinema, tomar banho, tirar a maquiagem, colocar o pijama e dormir. Bom. Foram-se as minhas 8 horas.

Fiz chá hoje. Devo ter perdido uns 15 minutos nisso.

De qualquer maneira, meu ponto não é esse. O que pensei mesmo foi: 

02h/ sem para a faxina
36h/sem para o design
06h/sem para o estágio
06h/sem para a tradução voluntária
01h/sem na terapia
02h/sem na yoga
42h/ sem na cama (dormindo ou tentando)
14h/sem me deslocando

e quantas para mim?

O chão da minha casa tem um horário reservado para ele (ao menos enquanto estou de férias heheh), mas eu não. Foi muito triste constatar isso.

Eu queria, assim, ter umas 2 horas por dia para mim para... 

Há também os momentos que levanto para, como agora, pegar chá e lembro que a segunda leva de roupas está pronta para ser estendida, e vou eu estender.

O dia está muito bonito hoje, esse sol amarelado com brisa fresca que só o inverno pós-aquecimento global pode proporcionar. Lembro da minha infância, o verão era fresco como o inverno é hoje.

De qualquer maneira há dois coqueiros na frente da minha varanda, é bonito quando o vento bate neles. Eu queria ter umas duas horas por semana para ver o vento batendo neles e eles suaves deslizando para um lado, para o outro, e teimosamente voltarem a sua posição original tão logo o vento cessa.

Lembro das tardes no terceiro ano do colégio. Estudava pela manhã e fazia cursinho pré-vestibular à noite. Ah, é! Foi aí que conheci o Rafael. A parte da tarde era livre. Chegava da escola, almoçava, por vezes (muitas vezes) lia, dormia, brincava de me maquiar. À noite, como já disse, estudava.

Sempre estudei muito. Uma amiga, Dani, que me fez ver isso pela primeira vez. Ela disse: "Nany, você está sempre estudando! Mesmo quando não é uma faculdade, agora é o francês, e antes foi a fotografia, e antes? O que foi?." Porra, não é que é verdade.

Gosto mesmo quando tenho tempo para deixar acontecer o que vai acontecer. Por exemplo, hoje estou de folga, já tinha na mente uma lista do que fazer:

1- 02 h para casa, afinal hoje é segunda.
2- 01h para o estágio
3 - 01h na tradução voluntária
4- 01h na yoga.

Se acordei às 10:22 e vou dormir por volta da 01 da manhã, isso me dá umas 13 horas e 

(banheiro e 02 ligações)

38 minutos livres.

Foram 2 horas e 38 minutos entre acordar, trocar de roupa, limpar a casa (2h), fazer a comida e almoçar.

01 hora aqui no computador escrevendo

Saldo de 10 horas. Mas já são 15:12. Que horas é o yoga, mesmo? Tem 16:00 e 19:00, qual das duas eu vou?

Se for na das 16:00 já tenho de começar a me arrumar para ir, levo 30 min até lá de bicicleta.

É... devo ir mesmo na das 19:00. Isso me dá mais umas 4 horas. Duas para o estágio e o voluntariado e 02 para mim. Parece bom.

Ah, é! Decretei a terça-feira como minha. É dia de psicóloga, salão, ler? Brincar de maquiagem? Talvez.

A quarta ou quinta-feira (um dos dois) é dedicada à militância. Afinal, de todos os meus, sou só eu. Não devo recuar.

Agora vou deixá-los livres para rir e reafirmar que sou louca e devo me tratar. Também amo vocês!











terça-feira, 2 de julho de 2013

Cartas para Rafael: A Insustentável Leveza do Ser.

1

Milan Kundera começa seu livro assim:

"O eterno retorno é uma ideia misteriosa e, com ela, Nietzche pôs mitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir como foi vivido e que tal repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?
[...] a ideia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós a conhecemos: elas aparecem para nós sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. Com efeito, essa circunstância atenuante nos impede de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero?
[...] Se a Revolução Francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas como ela trata de algo que não voltará, os anos sangrentos não passam de palavras, teorias, discussões[...]
[...] a profunda perversão moral é inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente permitido.

[...] No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. [...] nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. [...] é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida e mais real e verdadeira ela é."

O que Nietzche diz é que, quanto mais conscienciosos estamos dos nossos atos, quanto melhor podemos vê-los sem a máscara da permissividade, mais responsáveis nos sentimos. E é o peso dessa responsabilidade que é tão insustentável quanto necessário para nos manter próximos ao chão e à realidade. Precisamos entender a realidade para que possamos nos prender a ela.

Mais a frente ele diz o seguinte:

"Depois de quatro anos em Genebra, Sabina estava morando em Paris e não conseguia se refazer de sua melancolia. Se alguém lhe perguntasse o que tinha acontecido com ela, não saberia explicar.
O drama de uma vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quisera deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quisera se vingar? Não. Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era o fardo, mas a insustentável leveza do ser.
Até então, os momentos de traição a excitavam e a enchiam de alegria com a ideia de que uma nova estrada se abria diante dela e, no fim da estrada, uma outra aventura de traição. Mas o que aconteceria, se a viagem terminasse? É possível trair os pais, um marido, um amor, uma pátria, mas o que sobraria para trair quando não houvesse mais nem pais, nem marido, nem amor, nem pátria?"

2

Alguns meses depois de me mudar para este apartamento, senti vontade de ter um bichinho em casa. Sabia que teria de ser um já grandinho, saio pela manhã e regresso à noite. Como poderia cuidar de um filhote? Ele ficaria muito sozinho durante o dia todo, eu não teria como educá-lo. Acabaria abandonado.

Sempre que voltava da faculdade, um gatinho me esperava. Era um gatinho bonitinho, cinza com a ponta do rabo branca. Ele ficava miando e, quando eu descia do carro, fazia-lhe carícias que parecia apreciar. Ficava me olhando com o olhar convidativo e desconfiado dos que moram na rua e, eu por minha vez, o encarava com desejo e medo dos que tem lar. Um dia, trouxe-o para dentro, dei-lhe um banho, nossa! As pulgas saltavam! Decidi que seria um teste, ficaríamos juntos aquela noite e no dia seguinte, dependendo de como fosse, ficaria ou não com ele. Durante o banho só pensava na sujeira que ele estava fazendo, que já eram 23:30 e eu tinha de acordar cedo. Pensei nos gastos com veterinário, comida, banho, remédio, vacinas. Aterrorizei-me com o pensamento de que não mais poderia dormir fora, pois teria um gatinho para cuidar. E o areal cheio de coco? Deus! Como fede!

No dia seguinte, ao sair para o trabalho abri a porta, decidi que o deixaria escolher se queria ou não ficar. Ele se foi.

3

Desde terça-feira não olho para trás. Caminhei com passos firmes e largos decidida a não mais pensar, e não pensei. Tudo que veio depois foi resultado de um completo não-senso, foi efeito sem causa.  Sempre acreditei que era o peso, mas na verdade foi a leveza que me consumiu. Verti choro copioso sem qualquer causa aparente. Meu coração estava completamente apagado, era puro efeito físico que estampava o quê? Não se sabe. Ele pode ser explicado pela negação. Não era por estar ali, não havia surpresas, era terreno já conhecido. Não era por mim. Não era por ele. Não era por dor, era por um vazio em torno de mim. Uma leveza tão leve, insustentavelmente leve, a mais leve que já conheci.

4

Ele veio à minha casa. Entrou no meu apartamento. Na noite do banho fez questão de dormir ao meu lado apesar de ter sua cama montada no chão. Era um gatinho dos mais carinhosos, não podia tê-lo imaginado de melhor maneira. Ficou comigo a noite toda. É claro que me perturbou, evidentemente cagou meu box, acordou-me as 5 da manhã querendo sair, sujou meu travesseiro. Mas eu tinha dinheiro para cuidar. Deixei-o ir sem nem ao menos perguntar quanto me custaria o veterinário e o banho: R$ 70,00. Setenta reais eu podia pagar. Sair? Seria uma ótima desculpa para acordar no lar. Detesto dormir fora. Dei para ele a responsabilidade da decisão de ir ou ficar, como se ele estivesse em posição de decidir, era só um gato assustado. Foi por pura covardia que me eximi. Em pensar que numa outra manhã ele voltou e, mais uma vez covardemente, deixei-o escolher. E mais uma vez ele se foi, tornando definitivamente  insustentável a leveza do meu ser.


N.E.: Esse texto marca o final da seção de cartas para o Rafael.
N.E.2: Uma semana depois desse post, descobri que o gatinho tinha sido adotado pelo porteiro do meu prédio que se demitiu, homem de fibra ele. Já do Rafael, nunca mais soube.


sábado, 22 de junho de 2013

Cartas para Rafael: sobre o esquecimento.

Senhor, por que eu não sou do tipo que esquece?

Vamos lá! Apagando em 3, 2, 1. E...

Respiro fundo e penso: "É. É possível que eu nunca consiga te esquecer. Afinal, como se apagam dez anos do coração? Mas, mente!, será possível um intervalo, por favor?" Com os braços cruzados ela me olha de lado e bate o pezinho.

"Filha da puta! Tá me desafiando!"

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A que Vim e Porque Não Vou Sair.


Tenho estado muito quieta diante de tudo que se passa nessas últimas duas semanas de protestos. Tenho estado tão quieta que quase não me reconheci. É possível que eu tenha me deixado levar pelas dores de um amor não vivido e ainda assim muito desejado, sim é possível. Me rio - assim errado mesmo - em pensar que irônica e paradoxalmente, mergulhar na multidão e ocupar a cabeça de causas maiores e igualmente desejadas, só me faz desejar ainda mais estar perto dele. Queria perguntar o que fazer, será que a ONU me responderia? Quem a gente procura em casos de guerra civil iminente? Porque, chuchu, não vou te enganar não, é isso que acho que vai acontecer.

Interrompi esse texto para sair do trabalho e vir para a faculdade. Mais manifestações acontecem hoje, porém estão concentradas nos bairros e como praticamente atravesso a cidade do Rio de Janeiro para estudar, tive de sair logo para garantir que chegaria a tempo de fazer uma prova. No caminho, dominada pelo tédio, aproveitei para prestar atenção na conversa alheia. De repente os assuntos cotidianos ficaram tão mais interessantes! Um rapaz no metro comentava com seu amigo que achava o movimento maneiro, mas estava preocupado com a direção que está tomando. Opinava dizendo que não tem uma razão específica de acontecer, que deveria ser mais organizado, mais bem explicado. Devia ter foco. Esse texto é para você, meu bem, que ainda não compreendeu porque estou, quem sou e para aonde vou. É para você também, tão pouco elucidado Dudu. Desfrute.

Saio às ruas, hoje, pelo direito de sair. Querido, ainda nem comecei a reclamar e você já colocou o BOPE nas ruas. Tsc tsc. Errado! Tem um carinha chamado Sun Tzu que escreveu um livrinho minúsculo sobre conflitos. Fala a verdade, você leu? Pois acho eu que se tivesse lido, saberia que dominar o coração é fundamental para não se antecipar. A passagem voltou ao valor antigo e ainda estamos na rua. Polícia militar, tropa de choque, batalhão de operações especiais, exército agora? E depois dele, quem você vai chamar? A mamãe? Para te consolar?

Nestas minhas escutas furtivas, ouvi pessoas comentando – surpresas! – que finalmente a juventude começou a fazer algo. Bem, eu sempre quis fazer. Só que antes minha mãe não deixava! Mas adivinha só? Cresci, estudei, formei uma opinião discordante da sua, corrupto. Durante os anos que me formava, você defendeu seus interesses, obteve vantagens intangíveis ao cidadão comum, você foi especial! Seus 14º e 15º salários vêm como a mínima exemplificação da sua diferença.

A priori, não estou aqui para reclamar de seus abusos pontuais, isso é há muito sabido. Minha revolta é contra a maneira pela qual vocês, governantes, tem se portado. É imoral, abusiva e ilegal. Curtiram bastante esses anos? Espero que sim, pois meu movimento é para aplicar a forma de pensamento que considera o bem coletivo acima do individual, entendemos que mudanças estruturais são feitas com investimentos maciços em educação e não nos seus salários! Queremos que todos tenhamos direito à saúde de qualidade, à moradia de qualidade, à uma vida de qualidade. Nosso movimento, ao contrário do que tem sido dito, tem foco sim! Queremos mudar a postura do Estado diante do povo. No bom português, vamos mudar o rumo dessa prosa. Fazer a banda tocar outro ritmo que você, Dudu, prova a cada atitude ditatorial não saber dançar.

Não posso culpar minha ascendência pelos 11 anos que silenciaram, só posso imaginar quão difícil foi entrar, viver e forçar a sair de 64, para logo em seguida voltar às ruas - ainda marcados, sem saber o paradeiro de familiares e amigos, achando que nunca saberiam (e ainda não sabem!) o que aconteceu com eles – para um impeachment.  

Os anos passaram, e estamos aqui. Somos um movimento espontâneo, apartidário e lindo. Ninguém me disse que fazer, o mesmo aconteceu com os outros 999.999 mil que estavam nas ruas comigo. Não estou ligada a nenhum grupo político, não acredito mais em vocês. Lindo, não?

Despeço-me propondo uma reflexão a respeito do desrespeito governamental pela via policial: Eles poderão torturar meu corpo, quebrar meus ossos, até me matar, então terão meu corpo inerte, mas não a minha obediência. (Gandhi)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Cartas para Rafael: Póstumas.

- Ai! Que horror! Sai de perto de mim!
- Ih! Que que eu fiz?
- Seu abraço me lembrou de como ele me abraçava. O Rafa é todo magrelo que nem você! E quando ele me abraçava fazia que nem você fez. Assim, esse abraço que cola o ombro mas não encontra o tronco. Aí eu sentia os ossinhos dos braços dele tocando as minhas costas, meio com as mãos já se posicionando de leve para sair. Ninguém me abraçava assim. Só ele.

É um abraço que não abraça em absoluto. Circula, mas não envolve. É um jeito escroto de abraçar e extremamente pessoal.